Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro

Somos um movimento de organizações da sociedade que a partir da identificação, sistematização e mapeamento de experiências procura se articular no estado com o objetivo de fortalecer as iniciativas agroecológicas

Sem-Terrinha do RJ realizam 14º encontro em Campos

por Eduardo Sá, especial para o Boletim do MST Rio

“Por Escola, Terra e Alimentos sem Veneno”. Esse foi o lema do 14º Encontro Estadual do Rio de Janeiro dos Sem Terrinha, em Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, que ocorreu entre os dias 08 e 10 de outubro. As atividades foram realizadas na Escola Técnica Estadual Agrícola Antônio Sarlo, com o apoio da Fiocruz e do Instituto Federal Fluminense de Campos. Devido às dificuldades com o transporte, dois ônibus foram cancelados, diminuindo o número de crianças participantes para aproximadamente 50. Elas vieram de 4 assentamentos e acampamentos diferentes. Ao final do evento, os sem-terrinha entregaram na Câmara de Vereadores de Campos uma carta pedindo a paralisação do fechamento de escolas no campo, além de outras reivindicações do movimento.

De acordo com Bia Carvalho, da Coordenação Geral do Encontro, a escolha do local se deu em função de a região norte fluminense ter o maior índice de escolas fechadas no Estado e ser a maior base social do MST: Campos tem o maior número de assentamentos e acampamentos no Rio. Segundo ela, a ideia é realizar encontros pedagógicos, com base em 3 eixos: formação, confraternização e reivindicação, ou seja, organicidade do movimento, jogos e brincadeiras e luta. Bia explica a importância do processo de formação fora da sala de aula para a criançada, porque nesse momento há a confraternização de crianças de várias regiões discutindo descontraidamente agrotóxicos, educação no campo, e outros temas importantes.

“É a única atividade do ano que reúne só crianças, assentadas e acampadas, para discutir esse espaço da criança na luta política do movimento. É uma forma de a gente dialogar com eles através de atividades lúdicas e formativas. O encontro é todo pensado para a idade deles e para valorizar as suas identidades sem terra. Então a ideia é manter essa mística acessa das crianças continuarem a fazer esse processo de reivindicação, porque hoje a maior parte delas sai do campo por falta de condições estruturais. Às vezes não tem estrada, não tem escola, não tem infraestrutura e nem espaços culturais para que a juventude e a criançada possa se encontrar para ter esse vínculo de permanecer no campo”, observou.

Entrega da Carta na Câmara dos Vereadores

 Uma carta foi entregue pelos sem terrinhas à vereadora Odisséia Carvalho (PT), que se comprometeu a levá-la ao plenário no dia seguinte. O documento aponta que das 126 escolas no norte fluminense, 12 foram fechadas nos últimos anos e nenhuma foi construída, além de considerar uma demanda do MST a construção de 3 escolas em assentamentos. A carta também denuncia que apesar da lei 11.947/2009 garantir 30% da merenda escolar para a produção dos pequenos agricultores locais, os trabalhadores estão vendendo seus produtos em outros municípios devido às dificuldades na licitação em Campos.

A vereadora afirmou que entregará a reivindicação do movimento à Comissão de Educação e ao presidente da Câmara dos Vereadores, Nelson Nahim (PPL), que foram convidados mas não estavam presentes. Segundo Odisséia, é fundamental a formação de novas lideranças e o MST acerta com o teor do documento.

“É altamente pertinente, porque uma lei nacional não está sendo cumprida. Os critérios de licitação não são para os produtos locais, o orçamento da agricultura está em R$ 10 milhões, apesar da vocação agrícola do Município, do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) e os assentamentos. Enquanto a Secretaria de Obras recebe R$ 565 milhões”, destacou a vereadora, que também se referiu à necessidade de municipalizar a escola do assentamento Zumbi 4.

Em seguida um representante de uma associação local ressaltou a importância dos assentamentos, pois, segundo ele, cerca de 10 mil pessoas vivem dessa economia. As 506 famílias produzem arroz, batata, feijão, folhas, etc, e não existe em Campos nenhuma indústria que empregue tanta gente, concluiu.
O ato acabou com a entrega do ofício pelos sem-terrinha, que foram convidados pela vereadora a entrarem na plenária da Câmara. Todos entraram sem bandeiras ou cartazes, seguindo a orientação da casa, mas houve confusão porque o segurança queria silêncio no recinto. Em protesto, a coordenação do encontro discursou no plenário lembrando que a casa do povo não pode calar a voz dos cidadãos.

A organização e as oficinas

Ao chegar em Campos, foram criadas brigadas, dividindo os participantes em setores de auto gestão para o bom andamento do Encontro. Esse método caracteriza a organização do MST, dividindo as tarefas de limpeza, comida, disciplina, etc, para a utilização e manutenção dos espaços, em núcleos que se reúnem várias vezes durante as atividades. Os alunos do ensino médio da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV) tiveram ampla participação.

Após a mística de abertura do encontro, regada a muita música e dança, o tema do evento foi esclarecido para as crianças. Elisângela Carvalho, do setor de educação do MST, explicou que só em Campos 6 escolas foram fechadas nos últimos anos. “Não vou sair do campo para poder ir para a escola, educação no campo é direito e não esmola”, foi uma das músicas cantadas com entusiasmo pelas crianças. Elas tinham entre 3 e 14 anos, todas eram no mínimo mestiças, refletindo na cor de suas peles profundas raízes históricas do campo. A abertura encerrou com uma música de Luiz Gonzaga, depois de muitas brincadeiras que arrancaram sorrisos da molecada.

Brinquedos foram disponibilizados para todos, que foram divididos em 3 grupos, por idade, para as oficinas. Cada núcleo tem um representante das crianças e de cada brigada. Foram realizadas reuniões para definir o nome dos núcleos e os seus gritos de ordem. Tudo construído junto com as crianças. Skate maneiro (sem terrinha em ação, nós brincamos de montão), Bonde do legume sem veneno (arroz com feijão, podemos comer, mas com veneno podemos morrer) e Semente criola do campo (queremos terra, saúde e educação), foram as escolhas, em ordem crescente de idade. Em seguida houve uma atividade pedagógica, que reuniu todas as crianças no auditório da escola. O tema era alimentação saudável, primeiro com uma peça explicando o que é o agrotóxico e depois com a construção de uma pirâmide alimentar feita em papel com as funções de cada gênero alimentício. O sábado foi encerrado com apresentações de funk e hip hop, com letras culturais.

As oficinas que ocorreram durante o domingo, antes da plenária geral, foram desenvolvidas com base em duas cartilhas distribuídas para as crianças: uma sobre agrotóxico e outra sobre o movimento em geral e suas reivindicações, sobretudo relacionadas ao tema do Encontro. Foram divididas em 7 temas: rap, ritmo e poesia; tecnologia social para construção de brinquedos; produção de fantoche com história e música; confecção de cartazes; desenho animado feito com massa de modelar; pintura em tela; contos de história.
Elisângela Carvalho, da coordenação de educação, ficou com o grupo das crianças mais velhas e lembrou que a utilização do material é uma forma de ensinar com facilidade e brincando, por causa dos jogos pedagógicos que tem na cartilha. Ela explicou o significado da bandeira do MST, com suas cores e símbolos: homem e mulher (luta de todos, união); vermelho (sangue dos morreram lutando pela justiça da terra); letra preta (lona dos assentamentos e luto pelas mortes, protesto); mapa brasileiro (o MST está em todo o país); o facão saindo do mapa (simbolizando outras lutas fora do país, como a pelo estado da Palestina); e o branco (da paz, no sentido da conquista do direito através da luta).

“Muitas das escolas abertas no campo só têm o primeiro segmento, aí as crianças têm que ir para a cidade estudar. E não tem transporte. A lei 11.947 garante 30% da merenda escolar produzida pelos pequenos agricultores rurais, mas isso não é cumprido. E o Brasil é o campeão no uso do agrotóxico, muitos produtos que foram proibidos em outros países são utilizados aqui. Queremos agroecologia e reforma agrária, que engloba escola, saúde, condições para viver bem no campo”, disse para as crianças.

O ponto de vista da criançada

As crianças menorzinhas ainda estão tomando consciência dos temas que são abordados no encontro, e estão mais preocupadas em brincar, porque, enfim, são crianças. Mas participam com muita alegria das atividades, e o sorriso é a arma de luta. Muitas vezes, nos desenhos transmitem alguma ideia relacionada ao que está se discutindo. Já as mais jovens, acima dos 8 anos de idade, têm uma forte percepção do que é posto em questão. É o caso de Matheus Oliveira, de 13 anos, que vai desde os 6 a encontros dos sem terrinhas. Sua avó mora em assentamento para ter aula de reforço, é analfabeta aos 67 anos, e ele a visita de vez em quando. Matheus diz que nos assentamentos existem poucos brinquedos e não tem muito com o que brincar, então o encontro é muito bom para isso.

“Aqui a gente conhece mais as pessoas, joga bola e brinca. Os assentamentos são necessários porque, por exemplo, na Bahia, tiraram os eucaliptos que eram vendidos para fora e plantaram feijão que é comida da gente. Na escola a gente estuda reforma agrária em geografia, e aqui aprende muito mais. Eu converso muito com a minha mãe sobre essas coisas também, sou muito curioso. Eu aprendi convivendo, porque no colégio as professoras não falam mal dos políticos”, afirma o menino.

Encerramento

“O MST está completando 28 anos de luta e conquistas, e no dia 12 de abril faz 15 anos que a Usina São João foi ocupada pelo assentamento Zumbi dos Palmares, o maior do Estado. Por isso estamos hoje aqui, com essa cultura e formação nesses dias. Existe escravidão dos trabalhadores nas usinas da região, por isso o movimento não para. Enquanto tiver miséria, latifúndio, escravidão, vai ter o Movimento Sem Terra”, destacou Cícero Guedes, do assentamento Zumbi dos Palmares, em Campos dos Goytacazes.

Houve música e dança com bastante emoção, e um bolo foi repartido para todas as crianças. “Mesmo com todas as dificuldades de estrutura, porque muitas crianças não puderam vir, realizamos nosso encontro.

Tudo que fizemos foi pensado para crianças, e foi feito com muito carinho. Conseguimos avançar em várias coisas, na formação e aprendizado, foi bonito. Semana da criança é uma data comercial, mas para nós é momento de luta. Vocês brincaram e aprenderam muito, produziram muita coisa legal”, finalizou Elisangela, para as crianças que ficaram em silêncio totalmente atentas ao que foi dito.

FONTE: http://www.soltec.ufrj.br/mstrio/sem-terrinha-do-rj-realizam-14%c2%ba-encontro-em-campos/

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Publicado em 02/11/2011 por em Uncategorized.

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