Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro

Somos um movimento de organizações da sociedade que a partir da identificação, sistematização e mapeamento de experiências procura se articular no estado com o objetivo de fortalecer as iniciativas agroecológicas

Via Campesina promove marcha na Rio+20 para denunciar intensa utilização de agrotóxicos pelo agronegócio

Por André Antunes e Raquel Júnia – Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Colaboraram: Eduardo Sá e Katarine Flor

Protesto contou com mais de 2 mil manifestantes e realizou ação direta dentro do stand da Confederação Nacional da Agricultura, principal entidade dos produtores ligados ao agronegócio.

André Antunes - EPSJV/FiocruzDenunciar o modelo de produção agrícola brasileiro baseado no agronegócio  e propor alternativas para ele: esse foi o objetivo da marcha organizada pela Via Campesina no último dia 21, que levou cerca de 2,5 mil manifestantes à igreja da Candelária, centro do Rio de Janeiro, de onde partiram em direção ao Pier Mauá, na região portuária. No local, estava sendo realizada uma exposição organizada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que reúne os expoentes do agronegócio brasileiro, como a senadora Kátia Abreu (DEM-TO).

Aproveitando o momento em que o debate ambiental ganha corpo em nível mundial, por conta da Rio+20, a marcha teve por fim denunciar a insustententabilidade do agronegócio, modelo que acarreta inúmeros impactos socioambientais. “Esse é um modelo agricola que prioriza a produção de commodities para exportação, não produz alimentos e envenena nosso povo e nosso ambiente. Então estamos aqui para denunciar esse modelo e propor um outro para o campo brasileiro, um modelo baseado na agricultura camponesa  agroecológica, que gere renda e dignidade para as familias e que trabalhe em harmonia com o meio ambiente”, afirmou Paulo Tarso, ligado ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e da Via Campesina.

Segundo Diego Moreira, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), esse modelo encontra conta com forte apoio do Estado brasileiro. “Se pegarmos o orçamento do Ministerio da Agricultura de 2011, veremos que dos R$ 120 bilhões destinados à agricultura, somente R$16 bilhões foram para agricultura familiar”, apontou. Ainda assim, diz Moreira, a agricultura familiar, de acordo com dados do Censo Agrícola de 2006 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é responsável por cerca de 70% de todo o alimentos produzido no Brasil ocupando apenas 24% das terras cultiváveis.

Já o agronegócio, afirmou Moreira, além de priorizar a produção de commodities agrícolas para exportação – como a soja, por exemplo – traz em seu bojo consequências desastrosas como a expulsão da população do campo para as cidades, a depreciação dos solos pelas diversas monoculturas e a contaminação da água e do solo pelos agrotóxicos. “Esse modelo agroexportador produz principalmente monocultivo para exportação, e além de tudo é um modelo altamente dependente de agrotóxicos, que está envenenando e matando a população, envenenando o solo, a agua a natureza, as pessoas. Esse modelo só traz desgraça para o mundo e nós camponeses precisamos nos articular e lutar por um novo jeito de fazer agricultura que garanta a vida das pesoas”, criticou. Esse novo jeito, diz ele, já existe. “Nós queremos defender um modelo baseado na agricultura familiar agroecológica, em que os camponeses produzam alimentos saudáveis sem degradar a natureza. Para isso precisamos fazer uma reforma agrária massiva e popular no Brasil, implementando um conjunto de políticas públicas que garantam a permanencia dos trabalhadores e trabalhadoras na terra”, disse o agricultor.

Dispostos em fileiras e caminhando na frente e atrás de um caminhão de som que entoava músicas de protesto, os milhares de manifestantes caminharam até o Pier Mauá. Alguns deles empunhavam grandes bandeiras, que davam uma ideia do número de diferentes movimentos reunidos ali: Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Movimento dos Atingidos por Barragens, Movimento das Mulheres Camponesas, Movimento Nacional Campesino Indígena da Argentina, entre outros, compunham as fileiras da marcha. Ao chegarem ao Pier Mauá, os manifestantes foram recebidos por policiais militares, que formaram um cordão de isolamento entre eles e a entrada da exposição organizada pela CNA, tudo sob a vigília de um helicóptero da PM que passava dando rasantes. Em dado momento, alguns manifestantes conseguiram romper o bloqueio da polícia, para tentar entrar no recinto em que ocorria a exposição. A polícia, no entanto, conseguiu formar um segundo cordão de isolamento na porta do local, eum início de confusão se formou quando alguns manifestantes forçaram a passagem, sendo recebidos a golpes de cassetete.

Surpresa do lado de dentro

Raquel Júnia - EPSJV/FiocruzO que os policiais e a organização da exposição não sabiam é que do lado de dentro também estava previsto um protesto. Cerca de 300 manifestantes dos diversos movimentos que compunham a manifestação já estavam no local desde a abertura da feira e aguardavam a proximidade da marcha para, do lado de dentro, também passar o recado contra os agrotóxicos e por outro modelo de agricultura.  Sem bandeiras ou camisetas que denunciassem a participação no movimento, os militantes se misturavam com os visitantes da feira. O local escolhido foi justamente um dos stands onde a CNA mostrava práticas chamadas de sustentáveis intitulado AgroBrasil.  No espaço também era possível encontrar panfletos e informações da Embrapa, Sebrae e multinacionais como a Monsanto e a JBS. Uma grande maquete instalada no espaço demonstrava o programa Agricultura de Baixo Carbono, desenvolvido pela CNA.

Em uma ação bastante coordenada, um manifestante disparou as primeiras palavras de ordem repetidas em coro: “O agronegócio é a mentira do Brasil”. “O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo”. “Se o campo não planta, a cidade não janta”. Os militantes pareciam “brotar” de todos os espaços do stand e rapidamente espalharam cartazes por todos os lados, a maquete chamada de sustentável virou um rio de panfletos e cartazes sobre o alto consumo de agrotóxicos no Brasil e os prejuízos dessa prática para toda a sociedade que consome alimentos envenenados.  O protesto também teve uma encenação na qual o ator consumiu uma fruta produzida pelo agronegócio e logo em seguida “desmaiou” pelo acúmulo de veneno no alimento. Com várias músicas criticando o modelo de agricultura e denunciando a ação de empresas produtoras de agrotóxicos e sementes como Monsanto e Cargill, eles deixaram o espaço e se encontraram com a marcha do lado de fora. Os outros stands foram fechados e, do lado de dentro, as pessoas observavam a manifestação.

O protesto durou cerca de 10 minutos diante dos olhos surpresos das pessoas que estavam trabalhando no stand e dos visitantes do local. Rapidamente o espaço começou a ser limpo pela equipe de manutenção da feira e fechado para visitação. “Esse manifesto foi contra a Monsanto, que é uma das parceiras do stand, então é ela que deve responder pelo manifesto”, esquivou-se Nelson Ananias Filho, da Comissão de Meio Ambiente da CNA, sobre a manifestação.  Entretanto, ele defendeu o uso de agrotóxicos na agricultura. “Para você ter um agrotóxico vendido no Brasil ele precisa de três anuências: da Anvisa [Agência Nacional Vigilância Sanitária], do Ibama [Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] e do Ministério da Agricultura e Pecuária. Para ser vendido ele passa por um intensivo processo de licenciamento, e se aplicado da forma normal e conforme o fabricante fabrica o defensivo não causa nenhum impacto tanto na saúde humana, quanto no ambiente do aplicador, bem como do consumidor. Então para esse agrotóxico ser utilizado na fazenda e seguindo a bula, conforme qualquer outro remédio, não existe impacto”, disse. Segundo o representante da CNA, um boletim de ocorrência seria feito por conta dos “estragos” causados ao stand. Entretanto, a ação se resumiu apenas a cartazes afixados e um pouco de tinta vermelha jogada em um parte da maquete.

Nelson Filho justificou também a posição do Brasil como maior consumidor de agrotóxicos do mundo. “Nós somos um país tropical que tem até três safras por ano dentro da sua propriedade. Nós usamos mais [agrotóxicos] no volume total, porque qualquer outro país tem inverno e uma safra. Nós temos safra de verão, safra de inverno e safrinha, portanto o uso de defensivos agrícolas de maneira correta, seguindo as orientações da bula do agrotóxico, não há problema nenhum. O uso hoje é consciente, nós temos o melhor programa de reciclagem de embalagens de defensivos de agrotóxicos do mundo, então não existe esta história de que usamos agrotóxicos além do que deveríamos. E hoje o Brasil é o maior produtor do mundo de alimentos porque soube utilizar os seus recursos e soube usar o defensivo na época certa”, afirmou.

No entanto, um extenso relatório aprovado pela Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados no final do ano passado, alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana e ambiental. O relatório aponta várias falhas do processo de fiscalização dos agrotóxicos – como a existência de apenas 90 técnicos somados os profissionais da Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura e Pecuária voltados para este trabalho. O documento mostra também as falhas no processo de reciclagem de embalagens. Segundo o relatório, o Instituto de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev), criado pelos próprios empresários do setor, trabalha com apenas 100 empresas de agrotóxicos, quando no Brasil existem 136 empresas registradas.

Raquel Júnia - EPSJV/FiocruzCleber Folgado, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e da coordenação nacional da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida também contesta as informações apresentadas pela CNA. “80% das propriedades do Brasil utilizam agrotóxicos, dessa porcentagem, apenas 30% são pequenas propriedades, desses agrotóxicos utilizados, grande parte é aplicada com pulverização aérea, que por sua vez, a maior parte é deriva. Ou seja, 70% dos agrotóxicos aplicados de avião se dispersam, 50% vai para o solo e 20% vai para o ar, apenas 30% atinge a planta. Agrotóxico é veneno, veneno foi feito para matar, destrói a terra, a água, a biodiversidade, portanto o agronegócio não é sustentável”, disse.

De acordo com o agricultor, os dados do ultimo censo agropecuário mostram também que a agricultura camponesa gera mais empregos no campo.  “O censo mostra que a agricultura camponesa gera 15 empregos a cada 100 hectares, enquanto esse agronegócio que se diz sustentável, a cada 100 hectares só produz 1,7 empregos. Queremos denunciar para a sociedade que agricultura produzida pelo agronegócio, além de depender dos recursos do estado, é extremamente insustentável, produz comida com veneno e não alimenta o mundo, e ao mesmo tempo anunciar nossa proposta de agricultura, com base na agricultura camponesa, na agroecologia, que sim é capaz de alimentar o mundo”, destacou.

Após a manifestação, os militantes retornaram em passeata pelo centro do Rio rumo ao aterro do Flamengo, onde participaram do segundo dia de assembleias da Cúpula dos Povos.

FONTE: http://www.epsjv.fiocruz.br/index.php?Area=Noticia&Num=664

Assista o vídeo sobre o protesto

Vídeo produzido pela Alba TV

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