Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro

Somos um movimento de organizações da sociedade que a partir da identificação, sistematização e mapeamento de experiências procura se articular no estado com o objetivo de fortalecer as iniciativas agroecológicas

Agroecologia e consumo

Miriam Langenbach, Bibi Cintrão e Denise Gonçalves, Maio/2014

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Podemos notar que até recentemente a agroecologia não considerava o consumo como um assunto seu. O consumo entrava tangenciando ou ficava invisível nos seus eventos, assim como nos projetos desenvolvidos. Como se esta questão não fizesse parte. O III Encontro Nacional de Agroecologia, realizado em Juazeiro (BA) entre 16 e 19 de maio de 2014, mudou essa situação com um Seminário Temático aliando a experiência de consumidores organizados ao tema da construção social de mercados.

Diferentemente da agroecologia, o sistema capitalista tem sido muito eficiente em termos de unir e controlar toda a cadeia – a produção e o consumo – dentro de seus interesses, e sob sua hegemonia.  A negação do assunto por parte da agroecologia, deixa de lado uma  ponta de  bilhões de habitantes que vivem em meios urbanos e que são concebidos basicamente para serem consumidores. Infelizmente em função disto, um aspecto crucial fica de fora das práticas e propostas da agroecologia.

 Vê-se que o assunto é tratado pela agroecologia como comercialização: busca-se formas de escoar os produtos, e neste sentido tem havido avanços. Basicamente as feiras agroecológicas/orgânicas são colocadas como contraponto aos supermercados, espaço central da ação do agronegócio.

 A inclusão de alimentos da Agricultura Familiar na Política Nacional de Alimentação Escolar-PNAE, tem sido conquistada, apesar das dificuldades. Isso vai junto com a presença cada vez mais atuante dos CONSEAS – Conselhos de Segurança Alimentar e Nutricional. Entretanto, o foco está na venda/escoamento dos produtos. A conscientização e entendimento do que estas iniciativas representam, ainda é objeto de escassa atenção. É preciso que a massa de alunos, nas escolas, não só entenda o que está em jogo, mas que participe ativamente deste complexo processo. As grades curriculares estão voltadas para a acumulação de conhecimentos que atendam aos interesses do sistema capitalista.

Não se pode ficar apenas na lógica do escoamento da produção, na lógica mercantil, mas é necessário ir mais fundo em relação ao porque esta alimentação agroecológica é tão fundamental. Se tomarmos a questão dos venenos como um divisor de águas, fica claro que a agricultura familiar é o espaço para implantar esta mudança, já que o agronegócio não pode prescindir dos agrotóxicos (nem dos transgênicos). Mas nota-se que a agricultura familiar agroecológica ainda é minoritária. E corresponde a um movimento de grande esforço de agricultores, que os consumidores acabam desconhecendo em seus meandros e bastidores.

O consumo acaba sendo um tema muito mais amplo, que envolve os desejos, os valores, a cultura que influencia e define a compra. Assim  vai muito além da compra, definindo comportamentos e tendências sociais.

O sistema capitalista tem conseguido agir incessantemente sobre o consumo, no âmbito da vida das pessoas. A televisão tem sido um aliado de primeira hora para as crianças e  pessoas de todas as idades, pautando lazer e informação de acordo com seus interesses, criando um ambiente de verdadeira lavagem cerebral. Os valores passados são a importância do dinheiro, da competição, do “prazer” imediato despreocupado com um futuro sustentável, dentro de uma estratégia de movimentação contínua, que não deixa pensar.Vai criando um ambiente de monocultura da mente, em que as diversidades acabam ficando no detalhe.

A escola, com sua segmentação em disciplinas, com a avaliação sempre em curso, que privilegia conhecimentos vindos de cima, também não incentiva a familiarização com o real, com o pensar a respeito e como agir. 

Este processo está em curso há séculos e com suas várias medidas tem levado a uma grande transformação. Fundamental tem sido  o êxodo rural, que jogou a maioria da população em cidades – especialmente em grandes centros urbanos –  dificultando muito seu acesso e contato com a natureza. Ao contrário, as cidades têm se tornado um espaço de poluição e sujeira, na qual a terra, a água, o ar, tudo inspira preocupações. As crianças, além de não terem acesso à natureza, aprendem desde a mais tenra idade a temê-la.

O sistema tem poderosa proposta em relação a esta população, que é sua transformação em consumidores, desde a mais tenra idade, consumidores que se interessem pelo que o sistema tem para oferecer. A televisão e a publicidade como principal aliado educativo reforçam uma valorização do que é “moderno” e atual,  tornando-se a referência, muito mais significativa para a criança do que a família ou escola. É uma acompanhante contínua, que fala e mostra sem cessar, sem permitir nenhuma resposta. Invade e ocupa o imaginário, que passa a ter mais dificuldades de desenvolver suas próprias iniciativas. E passa a ênfase aos objetos como o valor primordial da vida; aos produtos que são oferecidos em massa, em milhares de matizes e detalhes, que vão absorvendo totalmente a atenção da população, que gira ao redor da aquisição dos mesmos. As escolas acabam ficando reféns desta forma de funcionamento; as famílias ficam seduzidas e, quando têm críticas, se sentem impotentes para fazer frente a esta avalanche.

Parte desta transformação é o fato de que os processos se tornam algo cada vez mais ignorado:  não se sabe de onde os produtos vêm nem para onde vão. Vive-se no aqui e agora, definido pelas oportunidades de consumo, marcadas pelo que está na moda num certo momento. Na escola aprende-se conteúdos que em geral estão separados de uma prática de vida que ajude as pessoas a se reapropriar dos processos, se aproximar da natureza, de fato, de forma cotidiana.

Outro aspecto é que  os objetos podem e devem ser substituídos em ritmo cada vez mais rápido, indo junto uma total  indiferença com as consequências deste descarte, que reforça o desperdício, o desnecessário, o excesso.

O tempo é visto como algo que pertence ao trabalho, que é definido também pelo sistema capitalista, que impõe ritmos e dissociações importantes. Vende-se este trabalho em um mercado feroz, que tem uma lógica de competição e exclusão permanentes.

A agroecologia, ao denunciar o que está sendo feito no campo, se movimenta por uma nova forma de agir em relação a natureza, em que o respeito é a tônica, preparando o terreno para uma mudança de mentalidade. Entretanto, ao ignorar a ponta do consumidor, que é sistematicamente trabalhado para a alienação, não possibilita o avanço em relação à questão.

Não se pode negar que está em curso, em função da precariedade de vida oferecida à população, uma percepção crescente dos riscos que o planeta vive, e um questionamento do modelo capitalista. E a agroecologia, ao repensar o sistema alimentar, o sistema produtivo, talvez seja uma das mais importantes inciativas neste sentido.

A nosso ver, dentro da agroecologia, os grupos de consumo têm potencial para mexer profundamente com este assunto. Por que? Porque eles se organizam como gruposque querem fazer mudanças necessárias em seu cotidiano para que um novo paradigma consiga se estabelecer, no que se refere à alimentação, à agricultura e à natureza.  Estes grupos se movimentam em função da busca de uma vida mais saudável, mas também por uma alternativa de vida que seja viável para as próximas gerações. O estar em grupo supõe discussão, supõe uma energia muito maior do que a de indivíduos, uma sabedoria que vai sendo acumulada, criando uma contra-cultura. Não sem dificuldades, conflitos, centralização. Mas este desafio é um aprendizado.

Estes grupos, percebendo que entre o agronegócio x agroecologia há um embate muito desigual, já que a concentração das vendas em grandes supermercados e shoppings leva a uma  crescente substituição de ingredientes naturais por “imitações” mais baratas, colocando o “preço” acima do “valor” e passando a tratar o preço como principal referência.  A oferta de um amplo leque de produtos num mesmo local, assim como a oferta de comidas industrializadas prontas ou processadas se colocam como vantajosas por permitirem “poupar tempo” na vida acelerada das grandes cidades. Há uma falsa diversidade de produtos, porque de verdade as pessoas têm à sua disposição uma repetição dos mesmos, todos ultraprocessados e com aditivos químicos, produzidos em grande escala, excluindo alimentos mais naturais e artesanais, impedidos de terem acesso aos mercados. O monopólio dos meios de comunicação é eficaz em impor seu modelo cultural.

Mas os resultados desastrosos em termos de saúde e poluição tem levado um número crescente de consumidores a se recusar a ficar refém desta proposta. Estes consumidores se dão conta de que é necessário aderir a algo além de simplesmente fazer compras junto a produtores que comungam com seus princípios. Percebem que comprar, cuidando de sua saúde pessoal, que não comporta venenos nem transgênicos, é insuficiente para o desafio vivido por esta e pelas futuras gerações.

Uma conseqüência é que o agir se torna algo que não está mais orientado pela lógica do lucro, ou do dinheiro, mas no qual a doação, a dádiva e a defesa da vida e de sua qualidade passam a ter um papel central. Sair da lógica permanente do dinheiro e do lucro, rompe com as premissas básicas do capitalismo. Esta mudança de referência, que acontece em um coletivo, em rede, nos grupos de consumo, faz toda a diferença. Possibilita a familiarização com um novo mundo e novas propostas, que são vividas cotidianamente, envolvendo a busca de maior proximidade com os produtores, o cuidado para além do veneno na percepção de que nas embalagens plásticas e no descarte como é feito, outro tipo de veneno se introduz. E, ponto principal: reconhecer num cuidar coletivo, em que cada um precisa ter vez e voz, e participação, o sinal de uma nova forma de existência que começa a se anunciar e que nos aproxima de fato, de um caminho de volta para a natureza.

Até o momento são poucos os grupos de consumo no Brasil, mas prometem. Criaram uma Rede de grupos de consumo responsável, que começa a se movimentar para que este tipo de iniciativa se irradie de uma maneira significativa. E esta será, junto com as feiras, e com os outros mecanismos existentes, finalmente, uma maneira de mexer de fato com o gigante corporativo. Um novo caminho que supõe sair que está sendo apresentado, e dizer não ao sistema capitalista e suas ofertas.

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