Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro

Somos um movimento de organizações da sociedade que a partir da identificação, sistematização e mapeamento de experiências procura se articular no estado com o objetivo de fortalecer as iniciativas agroecológicas

“As mais velhas do lugar, os mais velhos do lugar”

O diálogo de gerações e o respeito à diversidade de povos marcam o primeiro dia do IV Encontro Estadual de Agroecologia do Rio de Janeiro

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Abençoados pela chuva que fertiliza e renova os caminhos, os mais 300 participantes cruzaram hoje (26) o estado rumo ao Quilombo do Campinho em Paraty. Na mochila, alimentos, fotos, sementes, bandeiras e a enorme expectativa de reunir as sete regionais do estado que há mais de três anos não se encontravam.

Os tambores e os cantos ancestrais do povo negro dão o sinal: começa o IV Encontro Estadual de Agroecologia. A cada batida do tambor, a tenda principal vai ganhando mais cor e vozes diferentes vão ocupando o espaço.

Carros e ônibus não param de chegar e a mesa de abertura começa a ganhar forma: sejam todas bem vindas e bem vindos! As primeiras e os primeiros a falar foram os mestres do Quilombo do Campinho. Território Quilombola reconhecido em 1999, o Campinho tem em suas raízes muitas histórias de luta e resistência e nada melhor do que pisar nesse chão, abençoados por nossos griôs: Alvaro, Marilda, Domingos, Madalena, Valentim, Albertina – Nenhum Quilombo a Menos!

Diversidade de Olhares e Práticas

A AARJ é feita de muitos povos. E com essa energia, diversidade e força que começamos nosso encontro”, anuncia Érika Braz, integrante da Comissão Organizadora Local.

Reconhecendo, não só os saberes ancestrais, mas a diversidade de povos e comunidades tradicionais presentes, a mesa de abertura contou com a tradução simultânea para o Guarani. O indígena Júlio Karai, do povo Guarani de Angra dos Reis e representante dos Fórum de Comunidades Tradicionais Angra/Paraty/Ubatuba, dividiu o microfone com Érika que, animou e inspirou a acolhida desse primeiro dia, semeando alegria e gestando a esperança que nos move e nos une. Segundo Júlio, “conhecer as diferentes línguas é reconhecer a diversidade do mundo, falar do modo de dizer é falar do modo de ser, da memória, da vida”.

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A mesa de abertura é reflexo de um extenso trabalho em rede construído pela comissão organizadora, e contou com a presença de Generosa de Oliveira Silva, representando o Núcleo Executivo da AARJ, Luciano Vidal, vice prefeito de Paraty, Divan Rodrigues – agricultora do Assentamento São Roque de Paraty, Elaine Magali do Sindicato das Trabalhadoras e Trabalhadores Rurais de Paraty (STR), Eliane Ribeiro da Embrapa Agrobiologia, Marcos Menezes do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS), Gerreisat Almeida da Secretaria Especial da Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (SEAD), Lia Teixeira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Wagner Naise da Confederação Nacional das e dos Quilombolas, Luana Carvalho da Comissão Local e Eraldo Alves, agricultor agroflorestal.

O cenário político de golpe e retrocessos políticos, o caráter popular da agroecologia, a luta pela saúde, a resistência das famílias camponesas e de todos os povos tradicionais e o papel das parcerias na trajetória de construção cotidiana da agroecologia nos territórios foram alguns dos assuntos partilhados pelos e pelas integrantes da mesa. Lia Teixeira, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), ao falar do papel das Universidades e da construção do conhecimento, lembra da experiência do Projeto Campo-Campus que articulou diferentes organizações e movimentos sociais na formação de 70 jovens vinculados à diferentes assentamentos, quilombos e regiões do estado.

Lia encerra sua participação na mesa dizendo que “é preciso que a UFRRJ e demais Instituições de Ensino reconheçam a agroecologia enquanto projeto político de formação, pois o projeto do agronegócio, há mais de 100 anos, já foi reconhecido”, lembrando ela da luta contra o latifúndio do saber.

A prática no ensina: o saberes necessários para o Bem Viver

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Na construção da agroecologia enquanto ciência, movimento e prática, o IV Encontro aposta que, como nos alerta Paulo Freire, “não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes”. A caminhada nos ensina que o saber agroecológico é territorializado, possui tempos distintos, é feminista, acolhe diferenças e propõe o diálogo entre gerações.

A proposta do encontro abre e renova nossas reflexões sobre o ensino, a pesquisa e a extensão em agroecologia e, a partir do contato direto com e entre as experiências, estimula os intercâmbios, as inovações e as trocas solidárias. Já no fim do dia, ao chegar em uma roda de agricultoras da região SerraMar e da Metropolitana, foi bonito ouvir delas que agora entendem muito mais e melhor o que era esse tão falado Quilombo do Campinho, seu tamanho, organização e força.

Como lembrou Viviane Brochardt, comunicadora popular da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) na roda de conversa sobre comunicação e cultura, “é preciso que a técnica sempre esteja à serviço de um projeto político popular que repense os modelos impostos e valorize os diferentes modos de vida e suas expressões“, destaca ela ao falar da cultura e da comunicação como caminhos para a construção do conhecimento agroecológico.

“O desafio também mostrou nossa força”: o trabalho em rede como potência

O cuidado com a acolhida esteve estampado não apenas nos materiais entregues aos participantes, mas na diversidade e cuidado com a alimentação – uma das identidades e principais potências do Quilombo do Campinho, que mantém um restaurante e demais ações voltadas ao turismo de base comunitária.

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Ao caminhar do restaurante até os espaços onde aconteceram as 12 Rodas de Diálogo foi fácil perceber e se impressionar com a diversidade de cores e representações presentes. Luana Carvalho, da comissão organizadora local, partilha que o IV Encontro atinge e ultrapassa o equilíbrio de gênero, chegando a 55% de mulheres e acolhendo 54% de agricultoras e agricultores, indígenas, caiçaras e representantes de quilombos e demais comunidades tradicionais, alem de 20% de jovens.

Ao ver a boniteza desse primeiro dia, que nos emocionou tanto e ao conversar com a Marcela sobre o processo de construção, ela relembra dos desafios colocados para a comissão local: “realizar um evento como esse em tempos de golpe e imensas fragilidades institucionais e orçamentárias reforça as possibilidades que o povo tem de realizar ações como essa com pouco recurso e muita articulação. Esse desafio também nos mostrou nossa força”, sorri e respira fundo, ao seguir com a mochila correndo para outro canto.

Com objetivos específicos de colocar em destaque a luta das agricultoras e agricultores e povos tradicionais, fortalecer os processos de resistência e ampliar as redes e conexões entre as organizações, comunidades e coletivos atuantes dos territórios, o IV Encontro é fruto de uma extensa mobilização que teve início em 2015, tendo a Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ) como a rede articuladora de diferentes movimentos, organizações e grupos de todo o estado.

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Além da acolhida, da mística de abertura, o dia ainda contou com um café da manhã e almoço agroecológico, as rodas de diálogo temáticas, a plenária das mulheres e a primeira noite de apresentações culturais. Hoje, dia 27, é dia de feira, música, arte e cultura e diálogo com a sociedade no centro de Paraty e, no sábado, o encontro encerra sua programação com planejamento do próximo período e outras atividades que serão realizadas no Campinho.

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Publicado em 27/10/2017 por em Uncategorized.

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