Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro

Somos um movimento de organizações da sociedade que a partir da identificação, sistematização e mapeamento de experiências procura se articular no estado com o objetivo de fortalecer as iniciativas agroecológicas

Carta dos saberes ancestrais (Carta política e agenda de lutas) – Outubro de 2017

CARTA DOS SABERES ANCESTRAIS (CARTA POLÍTICA E AGENDA DE LUTAS) – OUTUBRO DE 2017

CARTA POLÍTICA

“O povo que planta e pesca, canta dança e faz festa em seu pedaço de chão. Abastece a sua mesa, agradece a natureza em qualquer religião. Seu lugar seu oratório,
tirar o seu território é calar a tradição.” (Luiz Perequê)

TERRITÓRIOS DO BEM VIVER

A compreensão da agroecologia como forma de cultivar territórios do bem viver é aqui mobilizada pelas inter-relações que entendemos existir entre os princípios da abordagem agroecológica, enfoque territorial e do bem viver. A partir do enfoque territorial reconhece-se que os territórios são construídos, simbólica e materialmente, nas interações entre os atores que dele fazem parte. O território, assim, não é compreendido apenas como uma realidade física ou geográfica, mas também humana, social, cultural e histórica, que dispõe de recursos materiais e imateriais específicos e não transferíveis para outro espaço geográfico. Partir da escala territorial, permite a emergência e percepção de dinâmicas econômicas, políticas, sociais e culturais endógenas ao território, como também o reconhecimento de embates e sinergias existentes e possíveis entre elas. Assim, a escala territorial pode facilitar articulações rurais-urbanas e propostas de ação coletiva que emerjam dos atores inseridos nos diferentes territórios.

O bem viver se apresenta como oportunidade de construção coletiva de novas formas de vida, sendo parte da emergência de alternativas de vida forjadas nas lutas por emancipação dos grupos tradicionalmente marginalizados. Assim, uma das tarefas fundamentais na construção do bem viver reside no diálogo construtivo e permanente de saberes e conhecimentos tradicionais com outras formas de conhecimento forjadas na construção da sociedade ocidental, em um processo de descolonização contínua. Nesses termos, o bem viver deve ser concebido em sua pluralidade, que emerge especialmente dos saberes indígenas e campesinos, em diálogo com outras culturas e formas de conhecimento, questionando os pressupostos da modernidade predominante.

No centro da concepção de bem viver também se coloca a contraposição à noção de crescimento baseada em recursos naturais inesgotáveis e a ideia de uma grande transformação unilinear para enfrentar os problemas socioambientais vivenciados em âmbito global. O bem viver parte da noção de que as respostas devem reconhecer a pluralidade, valorizando as diversas formas de vida que busquem se organizar social e economicamente com respeito aos limites biofísicos da natureza e que erradiquem estruturalmente a pobreza, tanto nas cidades como no campo. Dessa forma, os referenciais do bem viver, nos leva a repensar as atuais formas de organização da vida, no campo e na cidade, com base na economia solidária.

Importante dizer: porque compreendemos as práticas do Bem Viver como construção e fortalecimento de alternativas agroecológicas comprometidas com a natureza e a justiça social em cada território. Falamos de uma bandeira antissistêmica, antiracista e antipatriarcal.

O fortalecimento de alternativas agroecológicas passa diretamente pelo fortalecimento de cada pessoa que participa dessa construção, em respeito à harmonia das relações sociais.

A produção em quintais, hortas, pesca e pequenas florestas cultivadas por mulheres é agricultura, saúde e ancestralidade. O esforço coletivo em torno da visibilização desse trabalho é estratégia urgente para garantir avanços da agroecologia nos territórios.

Em uma sociedade monetarizada e patriarcal, a produção das mulheres nem sempre gera renda, o que as coloca em uma posição de extrema vulnerabilidade econômica. A proposição de políticas públicas voltadas para essa questão e feitas pela comunidade agroecológica, como um todo precisa ser prioridade.

Além disso, alertamos para a necessidade de difundir entre nós a compreensão de algumas pautas antipatriarcais. Falamos aqui de apenas três delas:

Quando uma mulher é violentada ou tem sua liberdade cerceada pelo cônjuge ou outro companheiro, esse é um problema de todos e todas.

Em espaços coletivos ou em casa, o tempo dedicado por uma mulher a trabalhos considerados domésticos é um investimento no bem viver de todas as pessoas. Não pensar alternativas à divisão sexual, racial e classista do trabalho reforça uma estrutura social que colabora para a perpetuação de uma economia predatória e descomprometida com o bem viver.

A multiplicação de iniciativas autogestionadas por mulheres enriquece o debate e colabora para a resiliência do movimento agroecológico como um todo. Viva a Plenária das Mulheres!

O IV ENCONTRO ESTADUAL DE AGROECOLOGIA DO RIO DEJANEIRO

Com o chamado ao conhecimento, sabedoria e bênçãos das comunidades tradicionais foi aberto o IV Encontro Estadual de Agroecologia do Rio de Janeiro (IV EEARJ), em Paraty, no Quilombo do Campinho, que entre os dias 26 a 28 de outubro de 2017, reuniu cerca de 400 participantes, dentre trabalhadores(as) da agricultura familiar camponesa e da pesca, caiçaras, quilombolas, indígenas, jovens, estudantes, assessores (as) técnicos(as), professores(as) e pesquisadores(as) envolvidos(as) em experiências agroecológicas no estado do Rio de Janeiro.

O encontro, cujo tema foi “Cultivando Territórios do Bem Viver”, desenvolveu-se em três seminários.  Entre eles, o painel sobre políticas públicas “Avanços e Retrocessos para a Agroecologia”, cujos debates e reflexões ocorreram em 12 rodas de diálogos temáticos: Acesso aos Mercados Locais; Agricultura Urbana; Agrotóxicos, Transgênicos e Biofortificados; Comunicação Popular; Conflitos Socioambientais; Construção do Conhecimento Agroecológico; Educação do Campo e Agroecologia; Mercados Institucionais; Reforma Agrária e Luta pela Terra; Segurança e Soberania Alimentar; Sementes e Biodiversidade e Turismo de Base Comunitária.

O conteúdo a seguir é composto por estes temas que se somaram às reflexões da Plenária das Mulheres e da Plenária da Juventude Agroecológica complementando os temas estratégicos da AARJ neste evento.

A função deste documento final do IV EEARJ é apresentar as principais adversidades/conflitos, as resistências agroecológicas; e as nossas bandeiras de lutas, a partir e reconhecidas em nossas trajetórias de luta e de resistência, ressaltadas pelas experiências compartilhadas em nosso Encontro.

ADVERSIDADES, AMEAÇAS E AS RESISTÊNCIAS AGROECOLÓGICAS

Historicamente o desenvolvimento econômico no estado do Rio de Janeiro gera múltiplos conflitos socioambientais, no campo e na cidade, através de uma agenda de desenvolvimento pautada pelo grande capital que reconfigura uma complexa diversidade de povos e territórios.

A ênfase à “ideologia das commodities”, que transforma tudo em mercadorias, inspirando políticas de desenvolvimento baseadas na exploração de recursos naturais, como petróleo, minérios, monoculturas resulta na organização das estruturas logística, tecnológica e produtiva do estado do Rio de Janeiro com o intuito de “torna-lo competitivo no mercado global”. Os efeitos destas dinâmicas de desenvolvimento se expressam na privatização de bens comuns, na especulação imobiliária, na expropriação de terras e territórios, implicando em desastres e crimes ambientais. Nesse processo, o Estado assume papel central ao criar as condições jurídicas, políticas e financeiras favoráveis aos interesses do capital.

Reconhecemos que o Rio de Janeiro é o estado mais metropolitano da federação por sofrer um processo histórico de esvaziamento, extermínio e invisibilização da agricultura familiar e da produção de alimentos chamado “desagriculturalização”.

A agroecologia resiste nas cidades e dá vida ao nosso debate sobre a agricultura urbana, como um meio de transformação e de bem viver em nossa sociedade, pela inclusão dos setores excluídos socialmente. Para além da transformação alimentar dialogamos sobre a invisibilidade da agricultura urbana, por parte do Estado, especificamente na cidade do Rio de Janeiro, que a não reconhece em suas políticas públicas.

Os trabalhos pela agroecologia têm convivido com cenários de violência sofrida nos diferentes territórios, rurais e urbanos, sobretudo pelas juventudes negra, indígenas e mulheres, enfim, pelos grupos menos favorecidos da sociedade, exatamente os grupos para os quais o Estado deveria estar voltado. Porém o que ocorre é o abandono do estado das politicas estruturais para a redução de desigualdades sociais, como na intervenção na questão agrária e proteção dos territórios das comunidades tradicionais.

Essas realidades se integram pela leitura da mercantilização dos recursos naturais, como o caso da água.  O atual governo estadual defende que a solução da crise hídrica e financeira passa pela privatização da CEDAE (Companhia Estadual de Água e Esgoto do Rio de Janeiro). Essa questão, aliada a concepção corrente de que a natureza é separada da sociedade, expressa-se na ideia de que a preservação do ambiente implica a retirada do ser humano de seus territórios de vida e de uso ancestral, para que esses territórios passem a atender a uma lógica capitalista explícita nos programas de mercado de carbono e, de turismo intensivo, bem como o papel da grande mídia em promover o modelo do agronegócio.

Os debates do IV EEARJ explicitaram o agravamento da luta pela terra, a partir de meados dos anos 2000, quando leituras enviesadas do governo federal, sobre a qualidade de vida nos assentamentos de reforma agrária, contribuíram para a paralização dessa política de estado e mesmo para a “Contra-Reforma Agrária”.  Essa conjuntura,  interrompeu os processos de obtenção de terra, desfigurou os instrumentos de desapropriação, e representou um retrocesso.  Na atualidade o governo ilegítimo encerra essa plena desconstrução das conquistas históricas, na medida em que a Lei Federal 13.465/2017 altera toda a essência do texto constitucional sobre a função social da terra.

Diante do cenário político marcado pela retirada de direitos sociais, em variados níveis e escalas, é importante nos posicionarmos em defesa das políticas públicas para a agricultura familiar camponesa. As últimas duas décadas foram marcadas pela ascensão da agricultura familiar como uma categoria política detentora de direitos, o que se materializou em um amplo e diversificado conjunto de políticas públicas desenhadas especificamente para camponeses. Uma das primeiras manobras políticas após o golpe em 2016 foi a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), principal ponto de apoio institucional dos programas para a agricultura familiar. Muitas políticas públicas já foram paralisadas, outras se encontram em situação de drástica diminuição orçamentária, e outras se mostram inadequadas para viabilizar a comercialização de produtos artesanais e da agricultura familiar.

Nesse contexto, ressaltamos as perdas de programas voltados à organização de mercados institucionais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) que vem sofrendo ataques de variadas ordens, em especial no corte de recursos. Para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) a dificuldade reside na falta de compromisso e empenho das gestões municipais e estaduais em cumprir com a diretriz de comprometer 30% do orçamento com a aquisição de gêneros alimentícios oriundos da agricultura familiar.

A farinata e outras iniciativas de mesma natureza são falsas soluções para enfrentar um problema complexo como a fome, cujas causas estão associadas a desigualdades sociais, e a outros tipos de violação de direitos.  Acreditamos que o combate à fome passa pela realização plena do direito humano à alimentação adequada, o que significa acesso à comida de verdade. Com as falsas soluções, perde-se o olhar sobre a biodiversidade, sobre a necessária proteção às sementes impactadas com a erosão genética promovida pelo agronegócio e pelos seus “centros de pesquisa” cultivadores das ideias dos biofortificados, dos transgênicos, entre outros recursos inadequados.

A ampliação do modelo de produção agrícola em escala industrial se expressa na posição ocupada pelo País como maior consumidor mundial de agrotóxicos, inclusive usando ingredientes ativos já banidos em outros países. Trata-se de um modelo que aumenta a expulsão da população do campo, a contaminação genética e a insegurança alimentar, forjando um grave problema de saúde pública com o aumento da incidência de doenças como cânceres, alterações neurológicas, depressão, suicídio, comprometimento do sistema imune, prejuízos no desenvolvimento de crianças e adolescentes, distúrbios hormonais e a morte.

Essas mazelas e as doenças relatadas acima, não se limitam a agricultura familiar e ao trabalho rural.  Também acometem trabalhadoras e trabalhadores das indústrias de agrotóxicos e consumidores.

Soma-se a essas ameaças, a flexibilização da legislação que regula os agrotóxicos no país, nos termos dos projetos de leis (PLs) 6.299/2015/2002 e 3200/2015, que propõem alterações na terminologia dos agrotóxicos, na rotulagem (extinção do símbolo de representação de perigo) e em todo o processo de registro, reavaliação, classificação, controle, e fiscalização.

Por outro lado, a produção orgânica (produção limpa, sem agrotóxico), caso não construa relações justas de trabalho, e seja realizada em grandes fazendas, visando à produção em larga escala, mantendo a concentração fundiária e mudando apenas os insumos, que passa a ser “orgânico”, por si só não é suficiente para sustentar o paradigma agroecológico.

O sucateamento dos serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) implicou a não universalização da assistência técnica, o esvaziamento da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER), a suspensão desses serviços públicos para os Assentamentos de Reforma Agrária (ATES), ao fim de 2014; a construção de obstáculos pelas Chamadas Públicas de ATER, na forma de restrições metodológicas e burocráticas; a defasagem entre a realização dos serviços e o pagamento das notas fiscais; e a interrupção de contratos, que gerou problemas estruturais para as entidades executoras de ATER, havendo a previsão de agravamento desse estado.

A conjuntura atual, com o fechamento de escolas do campo e, a evasão de famílias inteiras impossibilitadas de viver no seu território por não haver escolas ou quando existem, não envolvem o ensino fundamental completo, clamam por denúncias e mobilização unificada dos povos do campo, das florestas e das águas.

No estado do Rio de Janeiro nos últimos anos vivenciamos algumas modalidades de cursos de licenciatura em educação do campo, no nível de graduação e algumas experiências de especializações e formação em nível técnico.  Contudo, na educação básica pouco se avançou nas experiências de educação do campo, que permitam integrar conteúdo e identidade territorial. Atualmente, vários destes projetos foram interrompidos seja por corte de orçamento, seja por reorientação política.

NOSSOS COMPROMISSOS

Nossas conquistas não só dependem da atuação do Estado, mas também devem ser frutos da perseverança e maturidade política. Abaixo listamos nossas bandeiras de lutas permanentes que precisam ser assumidas e discutidas em nossas associações, cooperativas de trabalho e de produção, movimentos, reuniões com as comunidades, no diálogo entre agricultores e agricultoras, pescadores e pescadoras, quilombolas, caiçaras, indígenas, estudantes e assessores técnicos e nas articulações de agroecologia regionais.

Defender a educação pública, gratuita e de qualidade, contra o desmonte da licenciatura em educação no campo.

Defender a educação do campo em regime de alternância, por propiciar a visibilização da luta por uma educação diferenciada, tanto pelo direito ao ensino publico gratuito e de qualidade quando ao direito especifico á educação formal nos territórios e, sobretudo da valorização de um saber-fazer que compõe o modo de vida de populações camponesas, quilombolas, caiçaras, indígenas, extrativistas, agricultores urbanos.

Valorizar a relação entre educação pública e cultura popular como espaços de aprendizagem pela práxis e ressaltar a indissociabilidade da agroecologia como ciência, movimento e prática, nas múltiplas formas de construir conhecimento, não só o acadêmico, mas também os demais saberes.

Promover maior integração entre pesquisa-serviço-comunidade no sentido de caminhar para a construção de uma Ciência Cidadã, que possa contribuir para a emancipação social e a transformação da realidade.

Nessa perspectiva, a educação do campo não é entendida apenas como aquela existente/praticada/construída para/pela educação formal. A educação do campo agroecológica nasce nos saberes existentes nos territórios, nas suas práticas de relação com a natureza e com o manejar dos agroecossistemas para produzir alimentos e plantas que curam, no sentido de resgatar o vínculo da humanidade com a natureza, reconhecendo as práticas e os saberes tradicionais como um patrimônio cultural e valorizando os diferentes modos de viver a vida no campo.

Defender a manutenção e ampliação das políticas públicas como PAA, PNAE, feiras locais e mercados de proximidades, instrumentos criados para e pela agricultura camponesa e que possuem centralidade no desenho de estratégias de construção de uma economia com autonomia e livre das armadilhas dos mercados convencionais. Essas conquistas, além de fortalecer a viabilidade econômica das famílias agricultoras, também favorecem o acesso do povo à alimentação agroecológica e o consumo consciente, a fim de garantir alimentação saudável com maior integração entre campo e cidade, reestabelecendo o vínculo entre agricultores e consumidores, garantindo segurança, soberania alimentar e o direito humano à alimentação adequada.

Pressionar pela regulamentação da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 49 da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que desburocratiza e facilita as atividades das experiências de gestão familiar rural e dos princípios do cooperativismo e associativismo, pois são instrumentos que fortalecem os mecanismos de inclusão social e econômica das e dos agricultores e feirantes. É extremamente necessário que consideremos as diversas expressões de mercado propostas pela agroecologia como a orgânica, a da roça, a agroecológica e a artesanal, de modo a propô-las como uma luta comum frente à rotulagem convencional e excludente de mercado imposto pelo modelo capitalista.

Apoiar o fortalecimento dos vínculos comunitários e a geração de renda por meio de iniciativas coletivas, familiares e individuais, estimulando o diálogo e o fomento das organizações locais e por princípio, melhorando a distribuição da renda.

Criar condições para a implantação do Turismo de Base Comunitária (TBC) como sendo uma estratégia para conquista e permanência nos territórios, resgate e valorização dos diferentes modus de vida tradicionais. Sua implementação tem como base o “protagonismo de quem vive nas comunidades”, a cultura, o intercâmbio entre gerações, o conhecimento associado ao uso da biodiversidade e o respeito pelo meio ambiente.

Fortalecer as lutas nos territórios através da ampliação da rede de articulação entre diferentes atores sociais para que possamos avançar no enfrentamento ao uso de agrotóxicos e transgênicos no país, assim como às falsas soluções como a dos alimentos biofortificados denunciados pelo Fórum Brasileiro de Segurança e Soberania Alimentar (FBSSAN). Assim, faz-se necessário envolver diferentes segmentos da sociedade civil organizada, através de associações, ONGs, movimentos sociais, o Poder Público, pesquisadores, profissionais de diferentes formações, agricultores(as) e consumidores(as), na luta contra os agrotóxicos e em prol da agroecologia.

Apoiar a transição agroecológica e reafirmar constantemente o discurso de que não há uso seguro de agrotóxicos entre os órgãos competentes de extensão rural, requerendo um posicionamento institucional a fim de não limitar a transição agroecológica somente a ações individuais de assessores(as) técnicos(as).

Aproximar o movimento agroecológico das instâncias locais de saúde com o objetivo de fortalecer a vigilância em saúde do(a) trabalhador(a) compreendida aqui como um processo de articulação de saberes e práticas entre profissionais dos diferentes setores públicos (ex: saúde, meio ambiente, agricultura, etc.), organizações civis e necessariamente com a participação de trabalhadores(as) rurais. No que tange especificamente ao setor saúde urge a instituição de fluxos de trabalho, definição de papéis e responsabilidades bem como a qualificação dos profissionais de saúde, a fim de se aumentar o registro e a notificação de casos de intoxicação por agrotóxicos nos sistemas de informação em saúde (SINAN e SINITOX) e assim conferir visibilidade e prioridade de ações.

Estabelecer estratégias de comunicação que possibilitem o pensar reflexivo sobre a problemática dos agrotóxicos com o intuito de provocar a corresponsabilidade entre diversos segmentos da sociedade e o Estado na consolidação da agroecologia como um modelo hegemônico. Para a efetivação dessa estratégia, é fundamental o engajamento popular através de um processo de informação e comunicação simples e efetivo que alcance também consumidores(as) – debates, campanhas, marchas, caravanas, divulgação de experiências, metodologias participativas entre outros.

Fomentar consciência critica de consumidores(as), incluindo a criação de espaços de troca com crianças e jovens, além de ações políticas coletivas, que problematizem o modelo hegemônico de agricultura e aprofunde a nossa proposta de bem viver. Construir coletivamente com agricultores(as) outras lógicas de abastecimento. Também é importante resgatar e incentivar a cultura alimentar local e estacional (respeitando a oferta das safras). Faz-se necessário a inserção desse tema nas diferentes estratégias de comunicação de forma a garantir a evolução da produção orgânica ao sistema agroecológico.

Promover a comunicação popular como ferramenta a serviço de um projeto político, reconhecendo que essa construção precisa ser um processo coletivo junto a comunidade, dialogando com anciãos, chegando na juventude e até nas crianças.  Comunicar é um direito de todos e todas para todos e todas. Busca-se assim, uma democratização da Comunicação, com o objetivo de exercê-la para a pluralidade de vozes que a compõem.

Convocar e mobilizar toda a sociedade para pressionar o governo federal a implementar imediatamente o PRONARA e o Congresso para aprovar o projeto de lei de iniciativa popular 6670/2016, que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA).

Reivindicar a promulgação do fim da isenção fiscal para agrotóxicos no estado do Rio de Janeiro, conforme o que está ocorrendo no âmbito nacional.

Apoiar e fomentar o cultivo das sementes crioulas reconhecendo a importância de Guardiões(ãs) de Semente para a promoção a conservação da diversidade agrícola e da agroecologia, promovendo diálogo entre saberes e novas técnicas úteis para manutenção e viabilidade dessa nossa riqueza. Entendemos as sementes não exclusivamente a partir de aspectos botânicos, mas também enfatizamos o papel delas na cadeia da alimentação e na cultura das diversas regiões do mundo e também no nosso estado.

Viabilizar a articulação da agricultura urbana com os demais movimentos sociais, resgatando o acúmulo alcançado no I Encontro Nacional de Agricultura Urbana (ENAU). Ocupar territórios de resistência, como a Aldeia Maracanã, utilizando-a como espaço de visibilização para práticas de agricultura urbana e apoio a projetos indígenas, como a proposta da construção de uma Universidade Intercultural Indígena.

Lutar contra perda de garantias politicas como a Lei Federal 13.465/2017 que destrói a politica de reforma agraria, contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215 que ameaça a demarcação de territórios dos povos tradicionais. Nesse processo são estratégicas a recuperação e a implementação do Programa Estadual de ATER (PEATER/2006) e a sua extensão para os municípios fluminense.

Reafirmamos que o modelo baseado nos princípios do agronegócio é incompatível com a agroecologia, que incorpora os princípios de sustentabilidade, soberania e segurança alimentar, justiça social e ambiental, e economia solidária.  Por isso, protege a saúde, promove o bem-viver e gera vida.

Nós, indígenas, quilombolas, caiçaras, assentadas(os) de reforma agrária, agricultoras(es) familiares camponesas(es), populações das periferias urbanas, professoras(es), técnicas(os), pesquisadoras(es), militantes de movimentos sociais, reunidas e no IV Encontro Estadual de Agroecologia do Rio de Janeiro, entendemos que há um padrão de sinergia e cumulatividade desses projetos e impactos que nos atingem de maneiras distintas, mas associadas, que nos remetem à necessidade de construirmos uma unidade nas lutas, traçando estratégias em defesa dos territórios, da reforma agrária, dos campos, das águas e das florestas, enxergando no resgate do saber dos mais antigos, associado ao fortalecimento do papel protagonista das mulheres e da juventude na agroecologia, como um contraponto a forma de produção capitalista na agricultura.

Agroecologia: territórios garantidos, sabedoria para ter alimentos, floresta, água e saúde, no campo e na cidade.

IV Encontro Estadual de Agroecologia do Rio de Janeiro – Cultivando Territórios do Bem Viver.

Experiências Agroecológicas do Rio de Janeiro rumo ao IV Encontro Nacional de Agroecologia!

Paraty, 28 de outubro de 2017.

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