Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro

Somos um movimento de organizações da sociedade que a partir da identificação, sistematização e mapeamento de experiências procura se articular no estado com o objetivo de fortalecer as iniciativas agroecológicas

Os caminhos da liberdade

A história de uma ex-colona que conseguiu um pedaço de terra na região serrana RJ

Chica com uma pequena parte de sua produção no alto da Boa Vista, em Bom Jardim

Ainda adolescente no início da década de 1990, Adenilza Sandre, ou a Dona Chica como é conhecida no alto da Boa Vista, subia até a vertente do morro perto de casa torcendo para avistar uma bandeira branca hasteada na fazenda vizinha. Era o sinal que indicava a necessidade de trabalho aos fins de semana, sua única possibilidade de ganhar uma renda extra, uma brecha que não podia desperdiçar.

Proibida pelo dono da fazenda onde morava com a família como colonos, dava a bênção e saía com a autorização do pai, escondida, acompanhada pela irmã. Após caminhar por uma hora, tirava os dois chinelos antes de entrar na casa sede, que estava sendo reformada. Com cuidado, colocava um pé em cima do outro, para esconder o buraco que existia em um deles. Assim, descalça, começava mais uma jornada, sua função era cozinhar para os peões da fazenda.

Mesmo adolescente o trabalho na cozinha estava longe de ser o primeiro serviço de Chica, que desde cedo acumulou tarefas na lida diária. Hoje, aos 44 anos, o trabalho é no seu próprio sítio, onde vive com a filha caçula, o filho e o marido. Mas nem sempre foi assim. A vida como colona era muito dura: os serviços não eram pagos e o que fosse plantado era dividido pela metade com o dono da fazenda. O dia começava cedo e tinha que render muito.

“Com sete anos de idade eu já tinha que ter a responsabilidade de ir pra roça. Acordar, tirar leite da cabra, botar a cabra no pasto. Na hora do almoço trocar de lugar. A gente almoçava 9:30, tudo muito cedo”, lembra.

O vilarejo de Boa Vista fica em Barra Alegre, 4º distrito no município de Bom Jardim, região serrana do Rio de Janeiro. A casa de colono onde Chica morava tinha muito pouca estrutura. Os colchões eram de palha, a casa de pau a pique, o chão de terra batida. Não havia luz elétrica e o banheiro só fora de casa. No inverno rigoroso, típico da região, o jeito era se juntar para superar o frio.

“Lá em casa dormiam duas em cada cama pra poder ficar mais quentinho. Fazia muito frio e as casas não tinham o conforto de ter um forro, uma janela boa. Não tinha um agasalho, todo mundo passava frio naquela época”.

Além do frio, a família de Chica tinha que lidar com o preconceito de ser majoritariamente formada por mulheres; no total eram quatro irmãs, um irmão e os pais. O fato dificultava a permanência nas fazendas como colono, pois prevalecia a ideia de que apenas homens teriam a disposição necessária para a lavoura.

“Se você tivesse três, quatro filhos homens, tinha mais valor. Na época lembro que o papai conseguiu uma casa pra gente morar. Depois ele ouviu ‘que arrependimento de dar a casa, tem quatro mulheres e um menino pequeno’. O homem acabou se surpreendendo quando viu a mulherada, tudo pequenininha, trabalhando forte na roça”.

A lavoura de café da época de colono era pesada, e forjou uma disposição para o trabalho que até hoje é uma característica marcante para quem conhece a Chica. O estudo formal ela não teve oportunidade de seguir, pois além de morar longe da escola o trabalho chamava. Um dia a menos na escola significava um dia a mais de trabalho.

“Estudo a minha mãe torcia pro dia que a gente faltasse. ‘Falta aula hoje pra nós trabalhar’. Era muito serviço. Chegava o mês de junho, de julho em diante, a gente faltava quase tudo. No final do ano a professora chamava ‘Adenilza, 70 faltas’. Aquilo era muita humilhação. Mas as professoras sempre dando força pra gente ali”.

A dedicação na ajuda aos pais tinha um motivo: romper com o ciclo de dependência e exploração das fazendas da região, dos favores e das humilhações de se morar como colono, e ter acesso à terra. Esse objetivo de Chica e da família foi em parte cumprido no início de sua juventude, após juntar as economias que permitiram adquirir o lote e construir a casa dos pais.

“Quando ia pra fazenda, eu tapava o chinelo de vergonha, por causa do buraco. A gente sofria tanto de vergonha da turma rir da gente, que tudo que pudesse esconder a gente escondia. Era tanto medo. O patrão podia falar ‘eu não to te pagando, você não tá ganhando dinheiro?’. Mas a gente queria juntar o dinheiro pra ajudar os pais”.

Já trabalhando de forma fixa na fazenda vizinha, com carteira assinada, Chica reencontrou um colega de escola com quem se casaria, Jodair Leal. Dali, os dois começaram a morar nesta fazenda sem o peso de deixar pais e irmãos como colonos. “Depois que eu casei, eu me senti orgulhosa porque meus pais já estavam morando no que era deles, e eu podia tocar o meu barco”.

Foram quase 20 anos morando nessa fazenda, cuidando dos filhos do patrão e juntando ainda mais economias. Junto com Jodair, Chica conseguiu comprar um sítio no alto da Boa Vista, mas sem luz e ainda com a necessidade de aterros para o acesso. A construção foi lenta, nos fins de semana, assim como as obras de infraestrutura. Enquanto isso os filhos dos patrões cresciam. Até que chegou a hora de Chica tocar o barco mais uma vez.

“É uma responsabilidade você tomar conta dos filhos dos outros. A turma falava: Chica você é muito corajosa. Graças a Deus tomei conta das crianças, e elas foram crescendo. Quando a Clara tava maiorzinha, que já fazia as coisas mais sozinhas, eu pensei que era a hora de eu seguir meu caminho. Fui tocar o barco, fui engravidar e ter os meus filhos”, conta.

Há apenas cinco anos, Chica e Jodair vivem no sítio. No início, os dois passavam apenas alguns fins de semana e aos poucos foram trazendo os móveis, até que ficaram de vez. Ele continua como funcionário da fazenda, mas Chica trabalha apenas pontualmente. Em sua própria terra, onde pode fazer o que bem entende, começou a plantar cada vez mais e cuidar dos animais.

“A primeira sensação foi a liberdade de plantar. Lá na fazenda tinha lugar que podia, lugar que não podia. E não podia fazer nada em volta de casa, muito pouquinho. Aqui no sítio eu comecei a plantar, eu gosto de plantar, ter os meus bichos que lá eu não podia também. Então, renasci. Voltei para a mãe terra”, diz em tom de conforto.

Nessa nova fase, Chica também se tornou uma guardiã de sementes, mantendo a diversidade das espécies crioulas da região. Batata-doce roxa, branca, laranja, milhos e feijões de diferentes tipos, caramuela, azedinha, entre outras plantas pouco comuns que ela faz questão de cultivar. Mantém ainda práticas tradicionais, como a feitura do fubá no moinho de pedra. Chica não sabe explicar de onde vem esse seu gosto por estar próxima à terra.

“Eu sempre fui muito curiosa, talvez porque meus pais sempre me levaram pra roça. Se eu vou a um lugar e tem um jardim lindo eu fico ali admirando. Se tem uma pessoa conhecida eu já troco, pergunto se tem uma plantinha, ou uma mudinha. E se eu tenho eu quero distribuir também. E vai trocando. Eu sempre tive isso em mim, desde criança”.

A vida de Chica talvez explique porque a questão da reforma agrária tenha sido alijada do debate político nacional. O acesso a um pedaço de terra foi capaz de libertar e transformar a vida de sua família. Chica soube aproveitar as brechas que se abriram em seu caminho, o que nem sempre é uma opção, num contexto de retrocesso e crescimento da concentração de terras no país. Sua história faz imaginar a mudança social profunda que a reforma agrária promoveria no Brasil.

Tendo aprendido tudo o que sabe na prática, e refletindo sobre as suas escolhas, Chica é hoje considerada uma mestra no alto da Boa Vista, tanto pelos seus conhecimentos agroecológicos como pela arte de cozinhar no fogão à lenha. Mas principalmente por carregar em seu semblante a serenidade de quem passou por muitas experiências, sabendo que muitas outras estão por vir.

“Minha vida mudou. Eu nasci e vivi a vida de colono. Daí fui pra batalha pros meus pais terem a casinha deles. Depois casei, fui pra minha jornada. E agora estou aqui. É um dia após o outro”, resume em poucas palavras a sua longa caminhada. Sem precisar mais esconder os buracos do chinelo, Chica segue com muita sabedoria tocando o barco da vida.

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