Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro

Somos um movimento de organizações da sociedade que a partir da identificação, sistematização e mapeamento de experiências procura se articular no estado com o objetivo de fortalecer as iniciativas agroecológicas

“Jeitos diferentes de olhar o Brasil”: cultura, agroecologia e esperança

O IV Encontro Estadual de Agroecologia do Rio de Janeiro, realizado de 26 a 28 de outubro de 2017 em Paraty, marca mais um ciclo de ações no estado e renova os caminhos rumo ao IV Encontro Nacional de Agroecologia

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Com mais de 360 pessoas inscritas, o IV Encontro Estadual de Agroecologia reativou redes, fortaleceu laços entre organizações e reafirmou princípios importantes como a efetivação da participação de 55% de mulheres, 20% de jovens e 52% de representantes das comunidades tradicionais e camponesas. O Encontrou ainda contou com 25 crianças inscritas e participantes da Ciranda Agroecológica e cerca de 230 experiências regionais mapeadas sendo 10 na região Norte Fluminense,  25 na região Médio Paraíba, 28 na região Serrana, 35 na SerraMar, 54 na Região Metropolitana, e 80 no Território da Costa Verde, que acolheu o evento.

Foram muitos quilos de alimentos da agricultura camponesa adquiridos entre as articulações locais e regionais garantindo o intercâmbio, a valorização e a geração de renda entre as agricultoras e agricultores atuantes nos territórios. Foram mais de 11 apresentações culturais de grupos regionais, entre eles grupos animados por jovens, tambores femininos e por misturas que valorizaram artistas locais, diferentes sons e muito respeito pela cultura negra e indígena.

Somente na feira estima-se que mais de 300 pessoas tenham circulado, para além dos participantes do IV Encontro que coloriram e movimentaram as mais de 10 barracas que, entre a diversidade de alimentos, artesanatos e produtos processados, retratam a diversidade da agroecologia no estado. Organizado para assegurar a interação com o território e o intercâmbio de experiências entre os participantes, a programação do IV Encontro mobilizou um conjunto diversificado de metodologias e práticas, acúmulos do movimento social, agroecológico e popular, nos últimos anos.  

Por de trás desses números há um intenso e cuidadoso trabalho tecido pela Comissão Organizadora  e pelo Grupo Executivo da AARJ, buscando aproximar a cultura local, valorizar os saberes ancestrais e visibilizar as experiências de resistência nos territórios, seus anúncios e denúncias.

Para encerrar seu último dia do IV Encontro, o sábado (28) contou com a presença da educadora Irene Cardoso da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) e com o integrante da Secretaria Executiva da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Denis Monteiro que falaram sobre o trabalho em rede, e Claudemar Mattos (AS-PTA) que traçou a trajetória da AARJ nestes últimos 11 anos, destacando os três encontros estaduais de agroecologia do Rio de Janeiro anteriores, as caravanas agroecológicas, a participação da AARJ nos ENAs de Recife-PE e Juazeiro-BA, e o vídeo Caminhos do Rio (link), além das parcerias com a UFF, a UFRRJ e a Embrapa Agrobiologia. que possibilitaram a visibilização e o fortalecimento das experiências agroecológicas fluminense.  Este processo contribuiu com as dinâmicas das articulações de agroecologia regionais da Serramar, Norte Fluminense, Serrana, Metropolitana, Costa Verde e Médio Paraíba do Sul.

“A natureza nos liberta e as nossas redes nos seguram”, diz Irene Cardoso

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Quem conhece Irene sabe que suas palavras costumam ser flecha. Seus muitos anos de caminhada no movimento agroecológico e na costura de redes ensinou, como lembra ela no início de sua fala, que é preciso reconhecer que “nós precisamos uns dos outros e a rede foi a forma que a gente encontrou para se ajudar e, ao ajudar os outros, a gente descobre que, na verdade, são os outros que estão nos ajudando muito mais diz a professora que esteve também na coordenação do Projeto Comboio Sudeste que reuniu Núcleos de Agroecologia e Organizações dos quatro estados em torno de 5 Caravanas e diversas outras ações articuladas.

Irene, ao falar que a construção do conhecimento e das redes são processos que caminham juntos, lembra das Caravanas do Comboio (do Rio de Janeiro e de São Paulo) que passaram pelo Território da Costa Verde e diz que foi a oportunidade de conhecer o Quilombo do Campinho mesmo antes de chegar aqui, pois as Caravanas são formas “de conhecer os lugares pelos olhos dos outros” nos ajudando “a curar nossa ignorância” através das viagens, como lembra um agricultor da Zona da Mata Mineira.

Ela termina dizendo que “eventos abertos, inclusivos e mais participativos como esse são inspiração para construir o próximo Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) na cidade de Belo Horizonte”. E para isso, ela aponta que é fundamental reconhecer nossas Redes, como das organizações da Rede PTA, que deu origem a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), dos movimentos sociais e dos Núcleos de Agroecologia, ativos em todo o Brasil, ressignificando a pesquisa, o ensino e a extensão.

Denis (ANA) segue a prosa trazendo elementos da conjuntura política e comenta o contexto de retrocessos políticos e muitas perdas nas ações que historicamente foram bandeiras de luta dos movimentos sociais do campo e da cidade em defesa da agricultura familiar. Ao falar da relevância das redes, Denis afirma que ações como o IV Encontro e do IV ENA “só são possíveis se o movimento social estiver articulado e atento”.

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No conjunto de ações importantes no cenário político atual, Denis também aponta o papel das eleições municipais e das reivindicações da agricultura familiar, urbana e camponesa estarem presentes na construção das candidaturas. Falta mais um gancho!

Por fim, ao falar do IV ENA, ele também aponta a necessidade de que nos próximos meses cada região, organização, grupo possa olhar para suas potencialidades e planejar formas possíveis de contribuir com o encontro. “Seja na articulação do transporte, na doação de alimentos, de produtos de limpeza, na organização da produção e do trabalho coletivo para Feira, todas as regiões e estados já precisam começar a construir processos preparatórios e em rede necessários para viabilizar um ENA popular”, aponta Denis trazendo importantes recados para a atuação de cada articulação regional do estado.

Carta dos Saberes Ancestrais e Encaminhamentos Rumo ao IV ENA

O povo que planta e pesca, canta dança e faz festa em seu pedaço de chão. Abastece a sua mesa, agradece a natureza em qualquer religião. Seu lugar seu oratório, tirar o seu território é calar a tradição” canta Luiz Perequê, caiçara, músico e parceiro da agroecologia, morador de Paraty.

DSCN9019Marcela e Nelson caminham até o centro do terreiro e a Carta Política começa a ser lida por uma mulher, jovem e representante do Fórum das Comunidades Tradicionais e por senhor, agricultor, assentado da Reforma Agrária, militante do MST. Com o nome de “Carta dos Saberes Ancestrais” a função deste documento final do IV EEARJ, como apresentado por eles na plenária final, é registrar as principais adversidades, ameaças, desafios e compromissos reconhecidos em nossas trajetórias de luta e de resistência, ressaltadas pelas experiências compartilhadas durante esses três dias.

O IV Encontro, cujo tema foi “Cultivando Territórios do Bem Viver”, refletiu o processo de sistematização e de articulação de diversas experiências que se desenvolvem nos campos dos conflitos socioambientais, da reforma agrária e luta pela terra, da economia solidária, da agricultura urbana e periurbana, da saúde pelas plantas medicinais, das sementes crioulas, da construção do conhecimento agroecológico, dos mercados locais e institucionais, da educação do campo e do consumo e alimentação agroecológica popular.

A carta política é contundente: diante do cenário político marcado pela retirada de direitos sociais, em variados níveis e escalas, é importante nos posicionarmos em defesa das políticas públicas para a agricultura familiar camponesa e para as comunidades tradicionais. Entre os principais compromisso à defesa dos territórios, a resistência aos projetos de desenvolvimento neoliberais, a educação do campo, a comunidade popular, a luta do feminismo, o reconhecimento do agricultura urbana, a defesa dos bens comuns – entre os quais a defesa das águas , a luta pela Reforma Agrária paralisada no estado e no Brasil e tantos outras reivindicações presentes da Carta que reconhece, em seu nome, os saberes ancestrais como ponto de partida e fonte de força e inspiração.

Além da carta política, momento de culminância do IV Encontro, cinco Rodas de Diálogo Regionais garantiram espaços específicos para que as regiões pudessem dialogar sobre propostas de ações em rede para o próximo período. Como encaminhamentos concretos foi percebido, no momento de socialização dos grupos, a necessidade de fortalecimento e renovação dos Grupos de Trabalho, a importância de seguirmos na identificação, mapeamento e articulação dos conflitos e nas estratégias de resistências nos territórios acionando metodologias como a do Mapa Mudo e a importância de regionalizarmos o debate sobre a juventude e sobre o feminismo.

Encontros Regionais e atividades de preparação para o IV ENA e para as eleições municipais também foram destaques nos repasses dos grupos que serão a principal fonte de planejamento da próxima reunião da coordenação política da AARJ.

“Jeitos diferentes de Olhar o Brasil”: cultura, agroecologia e esperança

O terreiro do IV Encontro se alegra ao ouvir Irene falar que “há dois jeitos, bem diferentes, de olhar o Brasil: o primeiro é olhando para Brasília e o outro e olhando para nós”. Segundo ela é preciso reconhecer que em diferentes lugares e de diferentes formas há muita gente resistindo e construindo essa resiliência a partir da cultura.

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Nosso jeito de olhar é mediado pela cultura. O povo faz as coisas sem dinheiro e a cultura é compreendida não só para nos alegrar, mas como um instrumento de resistência”, diz ela contando história sobre as festas populares e traçando um paralelo com a realização do IV Encontro de Agroecologia do Rio de Janeiro em um Quilombo, com suas danças, rezas, comidas e mestres.

Em tempos de retrocessos, violência e separações, o IV EEARJ e o próprio processo preparatório do IV ENA nos traz pistas sobre nossa resistência. Entre tantos caminhos, a valorização da cultura, das alianças entre campo e cidade, a escuta e acolhida às diferentes são caminhos por onde a transformação ganha potência ao passar.

Foram mais de 80 organizações, movimentos, organizações envolvidas diretamente na construção do IV Encontro Estadual de Agroecologia do Rio de Janeiro. Esse breve sobrevoo mostra o potencial da nossa ação em rede, da resignificação das lutas e do re-encantamento dos processos de participação e democracia, no campo e na cidade.

Os abraços apertados marcam a despedida do Quilombo que pede licença para entrar e fechar o festejo! Canta jongo, canta samba, canta quilombo. Roda forte a saia, feijoada colore os pratos e, com as malas cheias de esperança e alegria, seguimos para casa ecoando na cabeça o canto do povo: “das nossas lutas a gente não pode correr”.

Acesse todos os vídeos, fotos e textos produzidos durante o IV Encontro na nossa memória online! 

Texto e Fotos: GT de Comunicação da AARJ Revisão: Claudemar Mattos

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Publicado em 19/12/2017 por em Uncategorized.

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